Fonte: Renata Valério de Mesquita. Revista Planeta nº 492, de outubro de 2013. Artigo A prisão do desejo - Quando se trata de casamento, os assuntos recorrentes parecem ser divórcio e insatisfação sexual..
Nesta conversa franca com a PLANETA, Esther Perel fala sobre a flexibilização do casamento, a monogamia, a fidelidade e sobre o seu best-seller internacional, que porta, desde o título, uma definição do problema vivido, desde sempre, nos relacionamentos: Sexo no Cativeiro (Editora Objetiva, 2007). Como terapeuta da intimidade dos casais, ela não está disposta a aceitar tabus históricos.
O que mudou na dinâmica dos relacionamentos?
Hoje queremos do nosso parceiro, ou parceira, o que sempre quisemos: estabelecer família, ter filhos, apoio econômico, status e respeito social. E também queremos que seja um eterno apaixonado, amante, confidente e amigo. Tudo. Quero poder confiar no outro, ser sua melhor amiga e também quero fazer amor com ele. Quero tudo de uma única pessoa. Quero me sentir especial para você, ser a única, indispensável e insubstituível – e sempre! Isso me dá sentido e ajuda a transcender a solidão. Não é pouca coisa. Ainda por cima, vivemos duas vezes mais tempo do que antes. Hoje é comum buscarmos em uma pessoa o que antes uma comunidade inteira proporcionava: o sentimento de ter apoio, pertencimento, continuidade e identidade.
[...]
Como surgiu a ideia de fazer um livro sobre as expectativas que depositamos nos parceiros?
Sempre se acreditou em problemas sexuais como consequências de problemas de relacionamento. O que vejo são muitos casais que se dão muito bem, que têm um bom relacionamento, boa comunicação, cumplicidade e intimidade, mas sofrem de falta de desejo. Então me interessei pela crise de desejo nos casais. O que significa essa falta de desejo e o que se pode fazer em relação a isso? Escrever sobre gente que não se dá bem e não quer ter relação sexual não é tão interessante. Quero entender por que tanta gente que se ama não se deseja, às vezes. Qual é a diferença entre amar e desejar? Podemos desejar o que já temos? Por que alimentar o amor e a intimidade não propicia desejo sexual? É essa dialética perturbadora que me interessa. Reconciliar a dupla necessidade que levamos aos parceiros: necessidade de encontrar uma relação comprometida, segura e estável e, ao mesmo tempo, buscar a novidade, o desconhecido, o mistério, a aventura e o arrebatamento. Que a mesma pessoa seja familiar e desconhecida, previsível e surpreendente, que me estabilize e me perturbe. Como reconciliar essas demandas humanas diferentes e, às vezes, opostas? Esse não é um problema que se resolve com técnicas ou com brinquedinhos. É um paradoxo que temos de administrar.
Dessa negociação complexa surgem novas formas de união?
Todas as formas novas de união são negociações para lidar com esse paradoxo. Estamos todos tentando manter um relacionamento estável, comprometido e de longo prazo, e procurando a realização pessoal, a felicidade e a satisfação sexual. Todos os modelos procuram dar às pessoas segurança e proteção sem ser enfadonhos e previsíveis. É algo que se cultiva e se explora juntos. Como desenvolver ao mesmo tempo um espaço erótico? Como entender que as leis da cozinha não sejam as mesmas da cama? Como entender que as regras da democracia não funcionam sempre tão bem no campo erótico? Trata-se de uma exploração, realmente, mais do que uma negociação.
[...]
As pessoas negociam conceitos de fidelidade e monogamia?
A monogamia mudou de sentido. Antes, monogamia era ter uma pessoa na vida; agora, é ter uma pessoa de cada vez. Monogamia não tinha nada a ver com amor, tinha a ver com patrimônio e sucessão. Em toda a história, ela sempre foi imposta às mulheres – para saber de quem eram os filhos e para onde ia a herança. Os homens nunca foram monógamos. A monogamia mudou de sentido quando o casamento mudou de sentido. O casamento passou a ser um arranjo amoroso e a monogamia passou a ser parte disso. Agora que chegamos ao casamento não monógamo, a fidelidade por sexualidade exclusiva virou a melhor maneira de dizer “eu paro por aqui” ou “com você vou ter uma relação de exclusividade”. A exclusividade é algo que escolho por escolher você em um momento da minha vida.
[...]
Você está casada há 30 anos com o mesmo marido, tem dois filhos e uma carreira. Você é um caso de casamento bem-sucedido?
A única relação duradoura é com a morte, diz um ditado um tanto amargo. Durar é ótimo e estou muito contente por ter uma relação duradoura, mas acredito que não devemos tomar a duração como símbolo de sucesso. Muita gente vem ao consultório dizendo que teria sido melhor se seus pais tivessem se divorciado, porque ficaram juntos de uma forma miserável. Durar não é um sucesso em si mesmo. É a qualidade da relação entre as pessoas que importa. Não o tempo.